
Qual é o país mais pirado do mundo, em matéria de religião? Afeganistão? Iraque? Índia? Está na hora de você incluir os Estados Unidos na sua lista.
O jornal The New York Times traz hoje uma reportagem com um lide (parágrafo de abertura) surreal a esse respeito, que merece ser traduzido aqui (leia tradução na íntegra aqui):
"Orações oferecidas por estranhos não tiveram efeito algum na recuperação de pessoas que haviam sido submetidas a cirurgia cardíaca, constatou um estudo aguardado há muito tempo."
Hã, e podia ter dado outra coisa? Precisava fazer um estudo duplo cego randomizado controlado e o escambau?
Aí vem o sublide (segundo parágrafo) e faz piada em cima da pancada (minha tradução livre para "add insult to injury"), ainda que involuntariamente:
"E os pacientes que sabiam que alguém rezava por eles tiveram uma taxa maior de complicações pós-operatórias, como batimentos cardíacos anormais, talvez por causa da expectativa criada pelas orações, sugerem os pesquisadores."
Em resumo, rezar faz mal. Pelo menos para os outros.
A reportagem de Benedict Carey (será o Benedito?) informa que a pesquisa científica rigorosa começou há uma década e envolveu coisa de 1.800 pacientes. O STEP (Therapeutic Effects of Intercessory Prayer) custou US$ 2,4 milhões, a maior parte deles oferecidos pela John Templeton Foundation. Fala também de outros dez estudos nos últimos seis anos, todos com resultados inconclusivos.
No caso do novo estudo, dirigido por Herbert Benson, cardiologista e diretor do Mind/Body Medical Institute, em Massachusetts, 1.800 pacientes que passaram por cirurgias para colocação de pontes cardíacas foram separados em três grupos: dois com reza e um sem reza, sempre por terceiros. Um com reza sabia da reza, o outro, não.
Os três grupos foram então comparados quanto a complicações surgidas nos 30 dias depois da operação. Não houve diferença significativa entre os dois grandes grupos, com e sem orações. Entre os com-reza, porém, 59% dos que sabiam apresentaram problemas, contra 51% dos que não podiam contar com certeza com as orações de desconhecidos.
Os autores do estudo, que obviamente pretendiam mostrar o poder curativo da oração, não se deram por achados. Disseram que é preciso estudar mais, ou que a investigação nada permite concluir sobre o poder da oração individual sobre o organismo do crente. Eles nunca vão dar o braço a torcer.
O mais espantoso não é que se discuta o resultado da pesquisa, mas pura e simplesmente que ela tenha sido feita. Torrar US$ 2,4 milhões nisso é um pecado capital, soberba.
A John Templeton Foundation tentou manter a fleuma. Num comunicado oficial, honestamente intitulado "Maior estudo com orações intercedentes por terceiros sugere que orações não são eficazes para reduzir complicações após cirurgias cardíacas". Eis um trecho:
"A Fundação encoraja jornalistas e outras pessoas interessadas a considerar com profundidade as várias questões interpretativas. Pesquisa sobre orações é um tópico fascinante e pode bem continuar de maneiras adicionais ao que foi apresentado como resultado do projeto STEP. No entanto, os achados negativos obtidos pelo metodologicamente rigoroso experimento STEP parecem oferecer um resultado clara e definitivamente contrastante com achados anteriormente publicados (estudo Byrd) de um efeito positivo para orações intercedentes à distância com paciente desconhecido, num experimento de oração envolvendo a recuperação de pacientes numa unidade de cardiologia."
Razão tem Richard Sloan, da Columbia University, para quem esse tipo de estudo só garante a reunião de má ciência com má religião, como disse ao jornal The New York Times.








