Ciência em dia por Marcelo Leite

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COISAS VISTAS E MAL VISTAS NO MUNDO DA PESQUISA CIENTIFÍCA, COM LUPA ESPECIAL PARA BIOTECNOLOGIAS E ECOLOGIAS

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Sexta-feira , 31 de Março de 2006

Ciência e Sociedade

Rezar faz mal

Rezar faz mal

Qual é o país mais pirado do mundo, em matéria de religião? Afeganistão? Iraque? Índia? Está na hora de você incluir os Estados Unidos na sua lista.

O jornal The New York Times traz hoje uma reportagem com um lide (parágrafo de abertura) surreal a esse respeito, que merece ser traduzido aqui (leia tradução na íntegra aqui):

"Orações oferecidas por estranhos não tiveram efeito algum na recuperação de pessoas que haviam sido submetidas a cirurgia cardíaca, constatou um estudo aguardado há muito tempo."

Hã, e podia ter dado outra coisa? Precisava fazer um estudo duplo cego randomizado controlado e o escambau?

Aí vem o sublide (segundo parágrafo) e faz piada em cima da pancada (minha tradução livre para "add insult to injury"), ainda que involuntariamente:

"E os pacientes que sabiam que alguém rezava por eles tiveram uma taxa maior de complicações pós-operatórias, como batimentos cardíacos anormais, talvez por causa da expectativa criada pelas orações, sugerem os pesquisadores."

Em resumo, rezar faz mal. Pelo menos para os outros.

A reportagem de Benedict Carey (será o Benedito?) informa que a pesquisa científica rigorosa começou há uma década e envolveu coisa de 1.800 pacientes. O STEP (Therapeutic Effects of Intercessory Prayer) custou US$ 2,4 milhões, a maior parte deles oferecidos pela John Templeton Foundation. Fala também de outros dez estudos nos últimos seis anos, todos com resultados inconclusivos.

No caso do novo estudo, dirigido por Herbert Benson, cardiologista e diretor do Mind/Body Medical Institute, em Massachusetts, 1.800 pacientes que passaram por cirurgias para colocação de pontes cardíacas foram separados em três grupos: dois com reza e um sem reza, sempre por terceiros. Um com reza sabia da reza, o outro, não.

Os três grupos foram então comparados quanto a complicações surgidas nos 30 dias depois da operação. Não houve diferença significativa entre os dois grandes grupos, com e sem orações. Entre os com-reza, porém, 59% dos que sabiam apresentaram problemas, contra 51% dos que não podiam contar com certeza com as orações de desconhecidos.

Os autores do estudo, que obviamente pretendiam mostrar o poder curativo da oração, não se deram por achados. Disseram que é preciso estudar mais, ou que a investigação nada permite concluir sobre o poder da oração individual sobre o organismo do crente. Eles nunca vão dar o braço a torcer.

O mais espantoso não é que se discuta o resultado da pesquisa, mas pura e simplesmente que ela tenha sido feita. Torrar US$ 2,4 milhões nisso é um pecado capital, soberba.

A John Templeton Foundation tentou manter a fleuma. Num comunicado oficial, honestamente intitulado "Maior estudo com orações intercedentes por terceiros sugere que orações não são eficazes para reduzir complicações após cirurgias cardíacas". Eis um trecho:


"A Fundação encoraja jornalistas e outras pessoas interessadas a considerar com profundidade as várias questões interpretativas. Pesquisa sobre orações é um tópico fascinante e pode bem continuar de maneiras adicionais ao que foi apresentado como resultado do projeto STEP. No entanto, os achados negativos obtidos pelo metodologicamente rigoroso experimento STEP parecem oferecer um resultado clara e definitivamente contrastante com achados anteriormente publicados (estudo Byrd) de um efeito positivo para orações intercedentes à distância com paciente desconhecido, num experimento de oração envolvendo a recuperação de pacientes numa unidade de cardiologia."


Razão tem Richard Sloan, da Columbia University, para quem esse tipo de estudo só garante a reunião de má ciência com má religião, como disse ao jornal The New York Times.

[Íntegra da reportagem do NYT em português]

Ciência e Sociedade

Lancet critica BBC preventivamente

Lancet critica BBC preventivamente

Qualquer pessoa com uma noção mínima de medicina sabe que prevenção é melhor que terapia. Parece ter sido esse o raciocínio por trás de uma iniciativa no mínimo incomum do periódico médico britânico The Lancet: publicar correspondência de médicos e pesquisadores criticando o conteúdo de um programa de TV da BBC antes mesmo de ele ir ao ar.

O programa é o Panorama que vai ao ar neste domingo. A reportagem investigativa programada começou a ser produzida em maio de 2005 e levanta questionamentos sobre o tratamento de mulheres com câncer de mama no Hospital Bradford, que teriam tido suas taxas de sobrevivência diminuídas em conseqüência de certas decisões tomadas por um médico já aposentado. Em defesa do hospital, especialistas dizem na carta para o periódico que os jornalistas da BBC podem ter se equivocado na interpretação das estatísticas e acusam a produção de se recusar a  mostrar o conteúdo do programa antes de ele ir ao ar.

Fantástico, não?

Leia abaixo trechos do press-release do Lancet:


BBC PANORAMA TEAM MAY HAVE MISINTERPRETED BREAST CANCER
STATISTICS AT BRADFORD HOSPITAL, SAY CLINICIANS
The BBC’s current affairs programme Panorama may have misinterpreted medical statistics to accuse a hospital of failing patients in its upcoming broadcast, claim doctors at the Bradford Teaching Hospitals Trust and independent experts in a letter published Online today (Friday March 31, 2006) by The Lancet.

In May 2005, the Panorama team informed Bradford Teaching Hospitals Trust of their plans to broadcast the programme about the clinical management of women with breast cancer in Bradford, entitled “The surgeon who failed women”. This programme, now entitled “The hospital that failed women”, is scheduled for broadcast on April 2, 2006. John Wright and colleagues at the Bradford Teaching Hospitals Trust have been refused a preview of the programme but on the basis of correspondence with the Panorama team they believe routinely collected medical data will be used to suggest substandard care.

In the letter Wright states that Panorama contacted the hospital to make a number of allegations concerning a retired Bradford surgeon. The allegations were based on a BBC commissioned report by Professor Michel Coleman (London School of Hygiene and Tropical Medicine, UK) analysing 138 surgeons in the Yorkshire Cancer Registry. The report examines the survival of women diagnosed with breast cancer between the years of 1982 and 2003. In one of the four time periods analysed, women who were treated with breast conserving surgery (BCS) by this particular surgeon were found to have a statistically significant excess risk of death two to five years after diagnosis. His patients were also found to have had a lower than average rate of referral for radiotherapy following BCS in the years preceding 1994 compared to the regional mean. Panorama’s programme may imply that the higher mortality rates are due to the surgeon’s lower referral rates for radiotherapy, state the authors.

However, Wright and colleagues argue that this assumption is incorrect and a misuse of statistics for the following reasons:

1 An investigation found that prior to 1995 there had been concerns among local clinicians about the side effects of radiotherapy. At the time there was no evidence that radiotherapy improved survival and no regional guidelines. These factors may have affected radiotherapy referral rates.
2 Professor Coleman’s report links the outcomes of a whole multidisciplinary breast cancer team to one surgeon.
3 Professor Coleman’s report adjusted for age and area of residence, but not sufficiently for cancer stage or case mix.
4 An independent review of Professor Coleman’s report by Professor Trevor Sheldon (University of York, UK) found flaws in the analysis and concluded that the difference in mortality could be explained by chance, or selection bias in the comparison group.
5 An independent review by Professor Richard Lilford (University of Birmingham, UK) of Professor Coleman’s report states that an inference regarding the rate of radiotherapy referrals and mortality was unsafe.
6 An independent commentary by Professor David Spiegelhalter (Medical Research Council Biostatistics Unit) urged caution over the interpretation of Professor Coleman’s report and cast doubt about the plausibility of under-referral being the cause of the lower survival rates.

Dr Wright concludes: “The past 10 years have seen considerable emphasis placed on the collection and analysis of medical and in particular surgical data such as mortality. We are concerned that this information will be increasingly used inappropriately to make allegations about individual professional practice. In the hands of media that cannot explore the subtlety, complexity, and uncertainty surrounding these data, there is a danger that performance figures will be misunderstood or even misused…We believe the way the Panorama team has handled this case may result in the further and unnecessary erosion of local and national public trust in health services.”

(...)

Please note that The Lancet is not providing further comment to that stated on this press
release.

Miscelânea

Festival Pontes na Folha

Festival Pontes na Folha

Sergei Tchirikov/EFE

Parecia plano de governo do Maluf, com Pontes para todos os lados. Todo mundo no jornalão paulista, hoje, tem opinião sobre o vôo do tenente-coronel: editorialista, Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, Claudio Angelo e até Barbara Gancia.

Confira. Nenhuma opinião é muito elogiosa, para dizer o menos. Observação cabotina: nada de novo para quem acompanha este blogue pelo menos desde 11 de fevereiro. Tem mais domingo.

Quinta-feira , 30 de Março de 2006

Biotecnologias

Quadrúpedes na Veja

Quadrúpedes na Veja

Veja/BBC 

A revista Veja resolveu publicar uma reportagem sobre estudo com a família turca com quatro pessoas que andam de quatro, extensamente debatida neste blog há duas semanas. Diante do monte de implicações evolutivas sobre o caso, mais sérias e menos sérias, fica difícil entender o que, exatamente, a reportagem quis mostrar.

Alguém aí entendeu? O título é de doer: "Como nossos ancestrais".

Quarta-feira , 29 de Março de 2006

Miscelânea

Godspeed, Pontes

Godspeed, Pontes

Está na Folha de hoje, estava no UOL/BBC ontem: o tenente-coronel Marcos Cesar Pontes já estaria sendo comparado por colegas russos a Yuri Gagarin, o militar soviético que em 1961 se tornou o primeiro ser humano a entrar em órbita e proferiu belas palavras ("A Terra é azul"). Motivo da comparação Pontes/Gagarin? O sorriso...

Dá um tempo. O sorriso?!

É assim que se tenta construir mitos e heróis, na falta do estofo correto. Não em Pontes, que tem a coragem necessária para enfrentar uma viagem dessas, mas para o programa espacial tripulado brasileiro. Quem quer apostar que este programa nasceu com Pontes e vai acabar nele? Cumprido o objetivo propagandístico já abertamente assumido pela Agência Espacial Brasileira (AEB), a grana vai encurtar.

Pontes não tem nada a ver com isso, está concentrado em cumprir o destino que forjou com sua monomania. Quando muito, pode ser acusado de alguma omissão, como sugeriu José Monserrat Filho na Folha.

Nesta altura, porém, só cabe desejar-lhe boa viagem (que começa às 23h29 de hoje, com TV: Bandeirantes, Cultura, Globo, Record e RedeTV!). Godspeed, Pontes!

Terça-feira , 28 de Março de 2006

Ciência e Sociedade

Apocalipse H5N1 revisitado

Apocalipse H5N1 revisitado

O caderno Science Times do diário The New York Times traz hoje várias reportagens e entrevistas sobre a gripe aviária. O tom geral é de maior ceticismo quanto à inevitabilidade de uma pandemia devastadora como a Gripe Espanhola. Vale a pena ler, em especial a série de perguntas e respostas esclarecedoras (veja mais abaixo gráfico explicando o nome do vírus).

Em 30 de outubro do ano passado, reproduzi neste blogue uma coluna pondo um grão de sal nesse tipo de pandemídia.

The New York Times

Domingo , 26 de Março de 2006

Biotecnologias

O gene egoísta trintão

O gene egoísta trintão

Coluna Ciência em Dia
Folha de S.Paulo - caderno Mais
26 de março de 2006

O aniversário mais importante de hoje é o de minha filha, mas o dever profissional obriga a um mínimo de circunspecção. Comemoremos, então, os 30 anos (e não 20) de um livro excepcional, "O Gene Egoísta", de Richard Dawkins. Para o bem e para o mal, um clássico.

Foi essa obra que popularizou, muito além da comunidade de teóricos da biologia, a noção de que os genes -trechos de DNA associados com uma proteína ou função- são os únicos e verdadeiros atores da evolução biológica. De um ponto de vista matemático, são eles as entidades que se reproduzem e ressurgem (ou não) na geração seguinte, por artes da seleção natural.

Da óptica adotada por Dawkins, não é descabido qualificar os genes como "egoístas", porque seu interesse único na própria reprodução forçaria organismos ao altruísmo. Paradoxalmente, e no interesse do DNA, um indivíduo poderia pôr em risco sua própria sobrevivência ou reprodução se isso aumentasse a probabilidade de genes iguais aos seus (os de seus irmãos, ou filhos) alcançarem a próxima geração.

Não é por outra razão que o britânico Dawkins é considerado um dos fundadores de uma escola teórica controversa, a da sociobiologia, ao lado de Edward Osborne Wilson, nos EUA. Suas fórmulas e modelos ajudaram a entender fenômenos biológicos desconcertantes, como os indivíduos estéreis nas comunidades de insetos sociais, como abelhas e formigas.

Dawkins e Wilson devem a sua sociobiologia a um nome bem menos conhecido, o de William Donald "Bill" Hamilton (1936-2000). Dele partiram várias idéias que levaram aos genes egoístas e quetais. Ainda que o cite extensamente no livro, Dawkins acabou levando a fama, com palavras de efeito como as que foram lidas pelo apresentador de TV Melvyn Bragg, há dez dias, numa sessão da London School of Economics em comemoração aos 30 anos da obra:

"Eles estão em você e em mim; eles nos criaram, corpo e mente, e a sua preservação é a razão última de nossa existência. Eles percorreram um longo caminho, esses replicadores. Hoje atendem pelo nome de "genes", e nós somos as suas máquinas de sobrevivência."

Não resta dúvida que se trata de uma expressão poderosa de uma revolucionária maneira de conceber a evolução, com reverberações teóricas que até hoje se fazem sentir. Não se deve esquecer, porém, que se trata de uma metáfora. Uma metáfora que saiu de controle e se instalou no cerne do entendimento biológico, mas ainda assim uma metáfora.

Genes não são, eles próprios, egoístas. Genes são coisas, não podem ser portadores de intencionalidade. Em biologia, não há lugar para ela (ou para finalismo, já disseram filósofos da ciência). Essa é só a forma humana de reconstruir com clarividência o que não passa da marcha cega da evolução, de antepor como plano o que é puro resultado.

Tal é a reflexão circunspecta que caberia ao gene egoísta fazer, ao alcançar a idade da razão.

Sobre a menção descabida aos 20 anos de Ana, só resta recorrer à versão hamiltoniana do argumento do escorpião que ferroa o sapo na travessia do rio: são os meus genes, ora.

Marcelo Leite é doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, autor dos livros paradidáticos"Amazônia, Terra com Futuro" e "Meio Ambiente e Sociedade" (Editora Ática) e responsável pelo blog Ciência em Dia (cienciaemdia.zip.net). E-mail: cienciaemdia@uol.com.br

Miscelânea

Brincando de astronauta, a missão

Brincando de astronauta, a missão

Leia na Folha de hoje os artigos pró e contra o vôo de Marcos Cesar Pontes até a Estação Espacial Internacional e depois manifeste aqui, ou onde quiser, qual argumentação é melhor, se a de José Monserrat Filho ou a de Luiz Gylvan Meira Filho.

Sexta-feira , 24 de Março de 2006

Biotecnologias

Íntegra da reportagem na revista Cell-1

Íntegra da reportagem na revista Cell-1

Eis a primeira parte da tradução da íntegra do artigo originalmente publicado no periódico científico internacional Cell, volume 124, páginas 1107 a 1109 (2006), noticiado mais abaixo neste blog:


Pesquisa com células-tronco no Brasil: uma decolagem difícil

Já se passou um ano desde que o Brasil aprovou uma lei possibilitando que cientistas trabalhem com células-tronco embrionárias derivadas de embriões humanos e criem novas linhagens de células-tronco embrionárias humanas. Mas vários obstáculos mantiveram a pesquisa com células-tronco embrionárias humanas na espera


Um ano atrás, a Câmara dos Deputados brasileira finalmente aprovou a Lei de Biossegurança, que tornou legal no Brasil trabalhar com células-tronco embrionárias humanas (CTEHs) e derivar linhagens de CTEHs de embriões humanos excedentes e inviáveis armazenados por três anos ou mais em clínicas de FIV (fertilização in vitro). Segundo a nova lei, nenhum embrião humano poderia ser criado para fins de pesquisa, e a clonagem terapêutica usando transferência nuclear de célula somática ainda está proibida. Quando o último voto pela Lei de Biossegurança foi dado, a audiência irrompeu em vivas com o anúncio do resultado: 352 votos a favor da aprovação da lei, 60 contra. Pacientes com distrofia muscular juntaram as mãos com Mayana Zatz, destacada pesquisadora de distrofia muscular, e com o ministro da Ciência e Tecnologia na época, Eduardo Campos, para 
celebrar a vitória marcante da comunidade de pesquisa científica do Brasil. Após anos de campanha, cientistas e defensores dos pacientes obtinham o direito de produzir e trabalhar com linhagens de CTEHs no Brasil. No entanto, um ano depois dessa vitória encorajadora, o aplauso se evaporou porque nenhuma colônia de CTEHs foi ainda estabelecida, até agora. Quais são as causas desse atraso?

Um mês depois da votação, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (mais conhecido pela velha sigla CNPq), o equivalente no Brasil à National Science Foundation dos Estados Unidos, carimbou US$ 5 milhões para a pesquisa com células-tronco e publicou um edital para projetos de terapia celular. Metade dos recursos viria do Ministério da Ciência e Tecnologia e metade do Ministério da Saúde, que estava ansioso para colher benefícios de saúde pública do novo campo de pesquisa, particularmente porque grupos de pressão de pacientes tinham auxiliado na aprovação da Lei de Biossegurança.

Biotecnologias

Íntegra da reportagem na revista Cell-2

Íntegra da reportagem na revista Cell-2

Eis a continuação da tradução da íntegra do artigo originalmente publicado no periódico científico internacional Cell, volume 124, páginas 1107 a 1109 (2006):


O comitê do CNPq para seleção dos projetos de células-tronco recebeu 106 propostas de grupos de pesquisa de todo o Brasil. Só 41 projetos, no entanto, passaram para a fase seguinte. O comitê de seleção era composto por seis pesquisadores em biologia de renomadas instituições, como a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O comitê incluía o Dr. Anibal Gil Lopes, o que suscitou preocupações nos círculos científicos, porque embora o Dr. Lopes seja um pesquisador respeitado da UFRJ, ele também é um padre católico e membro da Pontifícia Academia Pro Vita do Vaticano. Quando o comitê anunciou quais projetos seriam financiados, no final de agosto daquele ano, o próprio CNPq se viu sob fogo intenso. Dos 41 projetos aprovados, só três envolviam explicitamente o estudo de células-tronco embrionárias e um deles era uma 
proposta para cultivar células-tronco embrionárias de coelhos (não humanas) em um substrato de nanopartículas para verificar se colônias de células-tronco embrionárias podem ser cultivadas na ausência de células nutrizes de camundongos.

Surpreendentemente, a proposta de Mayana Zatz, da USP, para derivar linhagens de CTEHs de embriões humanos havia sido recusada, assim como a proposta de Lygia da Veiga Pereira, uma experiente pesquisadora de células-tronco, também da USP e antiga colaboradora de Zatz. A resposta que Pereira recebeu do comitê de seleção preenchia uma única linha: "A proposta peca pela falta de originalidade e não evidencia como a disponibilidade destas células poderá impactar avanços na saúde humana". Segundo Pereira, "o resultado do edital desapontou muitos de nós".

José Eduardo Krieger, do INCOR - um renomado centro de pesquisa clínica em cardiologia ligado à USP - também ficou insatisfeito com a decisão inicial de não financiar sua proposta para estudar a biologia das CTEHs. Ele ficou particularmente surpreso com a ausência de projetos voltados para a derivação de CTEHs na lista dos projetos aprovados. "Uma coisa importante assim nunca poderia ter sido deixada de fora, pois esse é um reagente fundamental nessa área, se quisermos ter sucesso no desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas para o reparo de órgãos adultos." Krieger recebeu uma resposta similar ao seu projeto de financiamento, afirmando que, embora seu projeto tivesse mérito, a equipe não tinha especialistas e experiência suficientes para realizá-lo. Krieger, chefe do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do INCOR, ficou surpreso com a alegação, dado que seu grupo havia sido escolhido poucos meses antes para liderar um dos quatro braços de um teste clínico de US$ 6 milhões com 1.200 pacientes para tratar cardiomiopatias com células-tronco adultas de medula óssea, 
financiado pelos mesmos ministérios.

Biotecnologias

Íntegra da reportagem na revista Cell-3

Íntegra da reportagem na revista Cell-3

Eis a continuação da tradução da íntegra do artigo originalmente publicado no periódico científico internacional Cell, volume 124, páginas 1107 a 1109 (2006):


Zatz, Pereira e Krieger, assim como outros nove pesquisadores principais, recorreram das decisões. O comitê de seleção do CNPq tornou pública sua decisão final no final de novembro do ano passado: quatro recursos foram aceitos, incluindo aqueles dos três grupos de pesquisa da USP. Em seguida, o CNPq argumentou que a mudança fora devida somente aos novos argumentos científicos oferecidos pelos grupos de pesquisa que recorreram, não à controvérsia deslanchada pela primeira decisão de agosto.

Diante das dificuldades que cercam a decolagem da pesquisa com CTEHs no Brasil, Pereira e seu colaborador Stevens Rehen estão liderando uma iniciativa para envolver o setor privado, na forma de um Instituto Virtual de Células Tronco (IVCT). A idéia por trás da rede de pesquisadores de células-tronco é atrair recursos privados para  financiar o avanço da pesquisa com CTEHs no Brasil, inicialmente por meio de colaborações científicas e encontros, assim como por meio do desenvolvimento e disseminação de protocolos para promover a padronização e assegurar que possam ser comparados resultados de pesquisas entre laboratórios espalhados pelo país. "O IVCT também oferecerá uma interface para discutir questões éticas terapias celulares com médicos, o público, empresas de biotecnologia e a imprensa no Brasil", diz Rehen. Trinta e cinco laboratórios brasileiros já manifestaram interesse em aderir ao IVCT, cujo conselho se encontra agora no processo de carregar o website com protocolos e referências, assim como com informações sobre os planos de realizar uma reunião, em poucos meses, para discutir os primeiros resultados de pesquisa.

Paralelamente, a pesquisa com CTEHs no Brasil está enfrentando um outro obstáculo importante. Claudio Fonteles, em um de seus últimos atos como Procurador-Geral do Brasil, apresentou uma ação direta de inconstitucionalidade contra a Lei de Biossegurança diante do Supremo Tribunal federal em maio do ano passado. Vinda de um católico devoto, sua petição argumentava que a permissão para destruir blastocistos humanos para derivar CTEHs ofendia o princípio constitucional basilar da inviolabilidade da vida: "A tese central desta petição afirma que a vida humana acontece na, e a partir da, fecundação". Seu sucessor, Antonio Fernando de Souza, apoiou a posição contra as CTEHs num parecer para o Supremo datado de 18 de novembro de 2005. A questão constitucional está agora sob exame do ministro Carlos Ayres Britto, do qual se espera que anuncie seu voto nas próximas semanas. A expectativa geral é que Britto vote a favor da Lei de Biossegurança. No entanto, a votação subseqüente no pleno do Supremo (uma sessão plenária em que pelo menos 8 dos 11 ministros estejam presentes) é considerada imprevisível.

Biotecnologias

Íntegra da reportagem na revista Cell-4

Íntegra da reportagem na revista Cell-4

Eis a continuação da tradução da íntegra do artigo originalmente publicado no periódico científico internacional Cell, volume 124, páginas 1107 a 1109 (2006):


A pesquisa com CTEHs no Brasil se encontra em terreno um tanto incerto. Colônias de CTEHs recebidas de laboratórios de fora do Brasil já começaram a ser descongeladas. Somente em janeiro deste ano o CNPq começou a enviar os recursos para pesquisa aos 45 grupos cujos projetos foram aprovados. Mas, mesmo com as verbas de pesquisa fluindo, os dois projetos da USP que têm por meta derivar linhagens de CTEHs permanecem sob a incerteza da decisão pendente no Supremo.

Embora a pesquisa com CTEHs enfrente numerosos obstáculos, a pesquisa com células-tronco adultas continua em alta no Brasil. Diversos estudos clínicos renderam ao menos alguns sucessos com transplantes de células-tronco adultas de medula óssea para tratar uma série de doenças, de diabetes e cardiomiopatias a cirrose hepática. Um dos maiores projetos clínicos atualmente em curso, financiado pelo Ministério da Saúde e pelo Ministério da Ciência e tecnologia, vai usar células-tronco adultas de medula óssea para tratar cardiomiopatias. Mais de 30 grupos de todo o país fazem parte agora do Estudo Multicêntrico Randomizado de Terapia Celular em Cardiomiopatias (EMRTCC). Há quatro braços no teste clínico: pacientes com cardiomiopatia dilatada por doença de Chagas (uma moléstia séria causada por uma tripanossomo parasitário que é endêmico em boa parte da América do Sul) e pacientes com cardiomiopatia dilata em geral, isquemia crônica ou infarto agudo do miocárdio. Há 300 pacientes por braço: 150 receberão injeções no coração de células-tronco autólogas da medula óssea, e 150 servirão como grupo de controle. O teste clínico EMRTCC se segue a estudos preliminares de segurança com pequeno número de pacientes, que demonstraram que o procedimento é seguro.

No Brasil, estudos clínicos com células-tronco adultas não são regulamentados pela ANVISA, a agência equivalente à FDA nos Estados Unidos, porque a injeção de células-tronco adultas da medula óssea no coração é considerada uma extensão de terapias existentes. A única exigência para esse tipo de estudo clínico é aprovação do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP). Cerca de 100 pacientes até agora foram submetidos a injeções de células-tronco adultas de medula óssea, menos de 10% do total de 1.200. Apesar disso, o Ministério da Saúde proclama que o Brasil está fazendo pesquisas pioneiras e assumindo um papel de liderança no desenvolvimento de terapias celulares. Estimativas amplamente divulgadas apontam a meta de salvar 200 mil vidas ao longo de três anos, quando a tecnologia estiver disponível, e economizar US$ 200 milhões por ano em custos de transplantes de coração. O trabalho com células-tronco adultas tem certamente se revelado um meio eficiente de obter apoio 
público para a pesquisa com células-tronco em geral. Por exemplo, a mais popular revista semanal de notícias do Brasil, Veja, retratou as células-tronco na capa de sua edição de 23 de novembro de 2005 sob a manchete "A medicina que opera milagres".

Biotecnologias

Íntegra da reportagem na revista Cell-5

Íntegra da reportagem na revista Cell-5

Eis a continuação da tradução da íntegra do artigo originalmente publicado no periódico científico internacional Cell, volume 124, páginas 1107 a 1109 (2006):


Uma questão que precisa ser enfrentada logo é a confusão, no público amplo, diante da diferença entre CTEHs e células-tronco adultas, assim como o tempo que transcorrerá até que ambas as populações de células-tronco estejam em uso clínico rotineiro. Krieger, do INCOR, considera que as diferenças e nuances entre células-tronco embrionárias e adultas nunca foram claramente expostas ao público. "Foi um fracasso coletivo. Falo com freqüência com jornalistas, mas não fui convincente o bastante, porque as nuances nunca chegaram ao jornal".

Vários participantes discutiram essa questão no 1º Encontro Brasileiro sobre Células-Tronco Embrionárias Humanas, no Rio de Janeiro, em novembro do ano passado. Luiz Eugênio Mello, um neurocientista da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e vice-presidente da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), imprimiu uma nota de precaução. Ele disse esperar que as expectativas fossem menos "excessivas", de maneira que as células-tronco não se tornem "uma outra terapia genética", com o que ele quis dizer uma decepção flagrante aos olhos do público geral. Sua preocupação encontrou eco em Pereira. Ela lamentou a mensagem equivocada enviada pelas celebrações após a aprovação da Lei de Biossegurança, que sugeriam que as terapias celulares estavam logo à frente. Zatz, no entanto, rebate: "Os pacientes todos que estavam lá [no Congresso] sabiam perfeitamente que nós estávamos defendendo a pesquisa. Você tem de pensar que a gente trabalha com uma população que não tem o menor grau de educação, e aí eles acham que a gente vai injetar células-tronco embrionárias e curá-los imediatamente", ela disse. "Por outro lado, se a gente não fosse muito enfático, a gente não conseguiria a vitória que a gente conseguiu."

Nem todos os cientistas brasileiros estão embarcando no trem das células-tronco, contudo. Luiz Fernando Lima Reis, do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer e presidente da controversa comissão de seleção do CNPq, preferiria ver mais ênfase na pesquisa básica. “Eu particularmente acho que o Brasil, assim como qualquer outro país do mundo, precisa estudar a biologia das células-tronco. Acho que existe um exagero e uma precipitação na utilização clínica ou na pretensa utilização clínica de células-tronco. Nós não conhecemos a biologia dessas células”, disse ele em entrevista. “Existe uma ânsia de se tratar as pessoas. A gente está pulando etapas que são importantíssimas." Com uma decisão do Supremo Tribunal Federal esperada para breve e com o início do fluxo das verbas do CNPq, a pesquisa brasileira com células-tronco deve ser capaz de decolar, finalmente. Resta saber se iniciativas como o IVCT [Instituto Virtual de Células-Tronco] terão sucesso em engajar o público geral no debate, de modo que o apoio da sociedade a esse tipo de pesquisa possa ser baseado em informação sólida, e não em expectativas desmesuradas sobre os poderes da biomedicina.

Marcelo Leite
São Paulo, Brasil
DOI 10.1016/j.cell.2006.03.003

Biotecnologias

Células-tronco multipotentes no testículo?

Células-tronco multipotentes no testículo?

Há uma chance de que o dilema ético representado pela destruição de embriões para obtenção de células-tronco multipotentes (embrionárias) possa começar a ser contornado graças a uma descoberta surpreendente: células muito semelhantes, com potencial similar para se transformar em qualquer tecido do corpo (e talvez curar doenças degenerativas), foram encontradas em testículos de roedores adultos por pesquisadores alemães.

O embargo sobre o artigo foi levantado hoje de manhã pelo periódico científico Nature. Ele será publicado online somente no dia 29 (próxima quarta), quando poderá ser localizado com a referência DOI: 10.1038/nature04697.

Presume-se que coisa equivalente exista nas gônadas de machos humanos, também. Neste caso, terapias celulares que venham a ser criadas para enfrentar males como Parkinson, diabetes, trauma da medula espinhal e outras esperanças longínquas dispensariam a clonagem de embriões a partir de células adultas do paciente, hoje imprescindível para evitar rejeição.

Bastaria retirar as células indigitadas do testículo e cultivá-las, ainda que seja necessário aprender a transformá-las (diferenciá-las) nas células especializadas necessárias para a patologia particular do paciente. Coisa que ninguém sabe ainda fazer. Além disso, resolveria o problema só de metade da humanidade - logo a pior.

Eis aqui a tradução do comunicado da Nature enviado a jornalistas de ciência:


Em estudo publicado online nesta semana pela Nature, pesquisadores relatam que isolaram células-tronco de testículos de camundongos adultos que exibem propriedades similares às de células-tronco embrionárias (CTEs). Os autores propõem que essas células, que poderiam ser extraídas de homens com uma simples biópsia testicular, poderiam fornecer uma fonte alternativa de células-tronco para cultivar células terapêuticas geneticamente compatíveis. Isso evitaria as dificuldades técnicas e éticas associadas com a obtenção de células-tronco de embriões humanos.

Pesquisadores já sabiam que certas células nos testículos de camundongos recém-nascidos são - como as CTEs - capazes de originar numerosos tipos diferentes de tecidos, mas não tinham demonstrado que tais células persistiam no adulto. Gerd Hasenfuss e seus colaboradores [da Georg-August-Universität, Göttingen, na Alemanha] fizeram exatamente isso.

A equipe isolou as células produtoras de espermatozóides dos testículos de camundongos adultos e mostrou que, sob certas condições de cultura, algumas delas se multiplicaram para formar colônias bem ao estilo de CTEs. Eles chamaram essas células de células-tronco multipotentes adultas da linhagem germinativa (maGSCs, na abreviação em inglês). Como as CTEs, maGSCs podem diferenciar-se espontaneamente nas três camadas básicas de tecidos do embrião e contribuir para ao desenvolvimento de múltiplos órgãos quando injetadas em embriões.

Quinta-feira , 23 de Março de 2006

Biotecnologias

Células-tronco brazucas na Cell

Células-tronco brazucas na Cell

 

A data oficial da revista é amanhã, mas a reportagem "Stem cell research in Brazil: a difficult launch" já está no site da Cell, como aliás "dedurou" o muy amigo Marcelo Nóbrega num comentário neste blog que, felizmente, ninguém leu.

Foi um parto de quase seis meses, mas valeu. Acho que ficou OK. Para adoçar a boca, traduzo o primeiro parágrafo e o último:


Um ano atrás, a Câmara dos Deputados brasileira finalmente aprovou a Lei de Biossegurança, que tornou legal no Brasil trabalhar com células-tronco embrionárias humanas (CTEHs) e derivar linhagens de CTEHs de embriões humanos excedentes e inviáveis armazenados por três anos ou mais em clínicas de FIV (fertilização in vitro). Segundo a nova lei, nenhum embrião humano poderia ser criado para fins de pesquisa, e a clonagem terapêutica usando transferência nuclear de célula somática ainda está proibida. Quando o último voto pela Lei de Biossegurança foi dado, a audiência irrompeu em vivas com o anúncio do resultado: 352 votos a favor da aprovação da lei, 60 contra. Pacientes com distrofia muscular juntaram as mãos com Mayana Zatz, destacada pesquisadora de distrofia muscular, e com o ministro da Ciência e Tecnologia na época, Eduardo Campos, para celebrar a vitória marcante da comunidade de pesquisa científica do Brasil. Após anos de campanha, cientistas e defensores dos pacientes obtinham o direito de produzir e trabalhar com linhagens de CTEHs no Brasil. No entanto, um ano depois dessa vitória encorajadora, o aplauso se evaporou porque nenhuma colônia de CTEHs foi ainda estabelecida, até agora. Quais são as causas desse atraso?

(...)

Nem todos os cientistas brasileiros estão embarcando no trem das células-tronco, contudo. Luiz Fernando Lima Reis, do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer e presidente da controversa comissão de seleção do CNPq, preferiria ver mais ênfase na pesquisa básica. “Eu particularmente acho que o Brasil, assim como qualquer outro país do mundo, precisa estudar a biologia das células-tronco. Acho que existe um exagero e uma precipitação na utilização clínica ou na pretensa utilização clínica de células-tronco. Nós não conhecemos a biologia dessas células”, disse ele em entrevista. “Existe uma ânsia de se tratar as pessoas. A gente está pulando etapas que são importantíssimas." Com uma decisão do Supremo Tribunal Federal esperada para breve e com o início do fluxo das verbas do CNPq, a pesquisa brasileira com células-tronco deve ser capaz de decolar, finalmente. Resta saber se iniciativas como o IVCT [Instituto Virtual de Células-Tronco] terão sucesso em engajar o público geral no debate, de modo que o apoio da sociedade a esse tipo de pesquisa possa ser baseado em informação sólida, e não em expectativas desmesuradas sobre os poderes da biomedicina.

Biotecnologias

A admirável vida nova de Venter

A admirável vida nova de Venter

Craig Venter, o cientista-empresário que forçou o seqüenciamento do genoma a ficar pronto cinco anos antes do previsto, é o protótipo do ególatra e não faz segredo disso. Numa entrevista a Alun Anderson (ex-editor-chefe da revista New Scientist) para a revista Prospect, ele se sai com respostas como esta:

P - Muita gente diz que você tem um ego muito grande. Afinal, o DNA que você seqüenciou era na maior parte o seu próprio.
R - É preciso ter um forte sentido próprio para fazer as coisas serem feitas. Eu acredito em mim mesmo e em minha equipe, em nossas idéias e em fazer história.

A leitura da íntegra da entrevista, no entanto, ajuda a desfazer parcialmente a imagem demonizada que se pintou de Venter durante a corrida do genoma, em que ele aparecia como o traidor vendilhão dos valores mais altos da ciência e os próceres do perdulário Projeto Genoma Humano, como Eric Lander, Francis Collins e John Sulston, posavam de guardiães do Santo Graal.

Alguns trechos de aperitivo:


But look at it this way: the public effort consumed about $5bn of public assets. Celera, by contrast, used its own money to sequence the genome for $100m and gave it to the public for free. When you look at the amount of medicine or education that $5bn could have purchased, I think you can come up with quite a left-wing argument for letting the private sector play its part.

We should be asking whether the best decisions are being made about the use of public money, and how to evaluate science as a whole. At the same time as those hundreds of millions of dollars from the Wellcome Trust were going to the human genome project here, a lot of scientists lost funding for their work. Many left Britain during that period. We live in a zero-sum game where there is a finite amount of money. If one thing is funded, another is not. In the "we must race against Celera" fervour, no one in Britain really stopped to ask if this made sense. Why didn't we just combine these projects and make them better, faster and cheaper? No one would answer those questions in Britain because national pride ordained that you had to support Sulston.

I want to change the world. A bacterium that makes gasoline from sugar in an academic lab doesn't change the world unless someone develops it commercially.

Basic research and commercialisation sit well together. They are not separate worlds: in fact, the more they get together, the better for society. People make a distinction between business skills and science skills, but if you can run a science programme and inspire people you can lead a business.

I left home when I was 17 to surf and explore life. Instead, I got drafted into the war so I turned 21 in Vietnam. Being faced with the death of thousands of people your own age and younger, and trying [as a medical orderly] to save as many as you could are tough lessons for someone at the end of their teens. Everybody that was there had their lives changed. Many people changed for the negative and did not recover from the war, but I was changed in such a way that I wanted to go on and make a difference. I thought it was wrong, politically, that we were in Vietnam, but none the less, 30 years later, we are back in an almost identical situation.

Biotecnologias

MST acerta uma no cravo

MST acerta uma no cravo

Depois de apoiar a desastrada invasão da Aracruz Celulose pelas companheiras da Via Campesina, o MST parecer ter acertado ao alvejar a Syngenta Seeds. Deixando entre parênteses se a invasão da empresa é a melhor forma de denunciá-la, as indicações - a julgar pela pesada multa dada pelo Ibama - são de que algo ilegal de fato estava em curso ali. É o que li na newsletter Manchetes Socioambientais, em nota que reproduzo abaixo (o Correio Braziliense, onde saiu a notícia, tem acesso restrito):


Empresa multada em R$ 1 bilhão
O Ibama multou em R$ 1 milhão a multinacional Syngenta Seeds. O motivo foi experimentos com produtos transgênicos a apenas 6km do Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná. A empresa tem 20 dias para recorrer da decisão. O Ibama entendeu que a Syngenta estaria cometendo uma falta gravíssima, desrespeitando a Lei de Biossegurança e colocando em risco o ecossistema. Outras 12 propriedades rurais nas quais foram detectadas culturas transgênicas no entorno do parque também estão embargadas. As penalidades devem ser anunciadas ainda esta semana - Correio Braziliense, 22/3, Brasil, p.11.

Quarta-feira , 22 de Março de 2006

Biotecnologias

Mary-Claire King, de novo

Mary-Claire King, de novo

Mary-Claire King

Reproduzo abaixo reportagem minha na Folha de hoje (caderno Cotidiano). Mais uma vez, é sobre trabalho de Mary-Claire King. Por coincidência (sorte? mira certeira?), ela foi tema recente de uma coluna 'Ciência em Dia', também. [Acréscimo às 14h40: o jornal The New York Times também traz uma reportagem sobre o estudo, de Andy Pollack.]


Exame indicado para mulheres de famílias de alto risco deixa escapar 12% das mutações que podem levar ao desenvolvimento da doença

Estudo questiona teste para câncer de mama

Artigo publicado hoje no periódico científico da Associação Médica Americana, o Jama, mostra que um teste com os genes BRCA1 e BRCA2, vendido pela empresa Myriad Genetics (EUA) por mais de US$ 2.000, deixa escapar 12% das mutações que predispõem mulheres de famílias de alto risco a desenvolver tumores de mama.
A liderança do estudo coube a Mary-Claire King, da Universidade de Washington, em Seattle (EUA), descobridora do próprio gene BRCA1, em 1990.

O BRCA1 foi o primeiro gene humano a ser identificado que tinha uma relação direta com essa forma hereditária de câncer de mama (a sigla BRCA vem de "breast cancer"). O teste só é útil, porém, em 5% a 10% dos tumores de mama, aqueles que podem ser explicados por mutações herdadas nesses dois genes. Os demais tipos envolvem outros genes e mecanismos, não necessariamente herdados do pai ou da mãe.

Em suas versões normais (sem mutação), os genes BRCA1 e BRCA2 fazem parte do complicado sistema de freios e contrapesos que impede células de proliferar descontroladamente. São genes anticâncer, não de câncer. O problema só pode surgir quando eles não funcionam bem.

No Brasil, cerca de 49 mil novos casos de tumores de mama devem ocorrer em 2006. Em torno de 10 mil brasileiras morrem com a doença a cada ano, o que faz desse tipo de câncer o mais mortal entre mulheres. Estatísticas dos Estados Unidos apontam que portadoras de mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 têm de 33% a 50% de chance de desenvolver um tumor, aos 50 anos, e até 87%, aos 70.

Por seu alto custo, o teste da Myriad é em geral indicado só para mulheres em famílias de alto risco, com mais de um caso de câncer ginecológico. O grupo reunido por King, que contou ainda com pesquisadores da Itália, da Eslováquia e da República Tcheca, reuniu uma amostra de 300 mulheres em hospitais e consultórios norte-americanos. O critério era ter pelo menos quatro casos de câncer de mama ou ovário na família e ter obtido resultado negativo no teste genético da Myriad para mutações no BRCA1 e no BRCA2.

A equipe isolou então as versões desses genes de cada participante e as submeteu a uma análise minuciosa. Cada versão "personalizada" foi seqüenciada (soletrada) de ponta a ponta, e vários métodos foram empregados para detectar truncamentos na sucessão normal de "letras químicas" que permite a esses genes exercer o seu papel no sistema anticâncer. Segundo o teste comercial, todas as mulheres reunidas no estudo eram supostamente portadoras de cópias normais do BRCA1 e do BRCA2, pois tinham testado negativo para as mutações. Não correriam risco grave, portanto.

Não era bem assim, verificaram os autores do artigo no "Jama", que também procurou problemas em genes não incluídos no teste da Myriad (CHEK2, TP53 e PTEN). Um contingente de 12% delas apresentava, sim, alterações no BRCA1 e no BRCA2 capazes de desencadear a doença. Outros 5% tinham problemas no CHEK2, e 1% no TP53 (nenhuma mulher do grupo de 300 apresentava mutações no gene PTEN). Ou seja, para mais de 12%, o teste é ineficiente, pois produz falsos negativos.

A medicina não tem muito a oferecer a mulheres de famílias de alto risco cujos testes genéticos apontam mutações nesses genes. Além de um exame mais acurado dos seios, por ressonância magnética, resta a opção de retirada preventiva das mamas, ovários e trompas. A decisão de realizar cirurgias dessa gravidade, pelas pacientes e pelos médicos, precisa ser baseada em informação tão boa e precisa quanto possível.

"Nossos resultados sugerem que testes genéticos, tais como hoje são conduzidos nos Estados Unidos, não oferecem toda a informação disponível para mulheres em risco", escrevem os autores do artigo. "Tecnicamente, a resposta está à mão. As mutações identificadas em nosso estudo que o teste comercial deixou escapar são detectáveis com o uso de outras abordagens atualmente disponíveis", concluem, pondo à disposição de outros pesquisadores os materiais que empregam na pesquisa.

O teste da Myriad se tornou polêmico porque se baseia em patentes que impedem qualquer outra empresa de desenvolver e vender exames baseados na detecção de defeitos no BRCA1 e no BRCA2. Essas patentes deram à Myriad um virtual monopólio do diagnóstico genético para risco de câncer de mama. O artigo de King apontando seus 12% de ineficiência é uma sutil, elegante e objetiva resposta a isso.


Novo adendo, às 15h: Por falar em patentes, dê uma olhada neste editorial do mesmo New York Times. E tem gente que não lê editorial...

Terça-feira , 21 de Março de 2006

Miscelânea

Uma imagem vale...

Uma imagem vale...

... mil palavras. Ou melhor, 13. [Imagem enviada por um amigo que foi passear em San Francisco.]

Segunda-feira , 20 de Março de 2006

Ecologias

Outro lado - O CCC do MST (1)

Outro lado - O CCC do MST (1)

Recebi do companheiro Edmundo o bilhete abaixo, uma reação a minha coluna "Pode conter Ned Ludd". Ele envia junto cópia de um boletim do MST de 14 de março, que tenta justificar a destruição de instalações de pesquisa da Aracruz Celulose no Rio Grande do Sul por militantes da Via Campesina. Reproduzo em nome da liberdade de expressão, mas discordo frontalmente da lógica "os fins justificam os meios" e da autoridade de algum "Comitê Central Científico" do MST decidir o que sejam pesquisa aceitáveis "para o povo".

Primeiro, o bilhete de Edmundo (o boletim vai no post abaixo):


CARO MARCELO, SOU LEITOR DA SUA COLUNA E APROVEITO PARA ENVIAR A VOCE BOLETIM DO MST EXPLICANDO O PORQUE DA INVASÃO DA ARACRUZ.    FAÇO ISSO PORQUE OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO - COMO SEMPRE - NÃO DERAM CHANCE AO PUBLICO PARA CONHECER O OUTRO LADO DA QUESTÃO.      AFINAL ENTRE EMPRESARIOS ISSO NÃO VAI ACONTECER.     MAS VOCE, ACREDITO QUE NÃO É EMPRESARIO - SEI QUE PRECISA DEFENDER O LEITE DAS CRIANÇAS MARCELO, DO CONTRARIO VAI PARA A RUA.     SEI TAMBERM QUE VOCE NÃO VAI PUBLICAR NADA DO QUE ESTÁ NO BOLETIM DO MST, MAS TEM A CHANCE DE CONHECER O OUTRO LADO, QUE É O DA DEFESA DO MEIO AMBIENTE E DAS TERRAS INDIGENAS.
ABRAÇOS DO EDMUNDO

Ecologias

Outro lado - O CCC do MST (2)

Outro lado - O CCC do MST (2)

Agora, o texto do boletim do MST, para sua avaliação:


Caros amigos e amigas do MST,
No último dia 8 de março, 2 mil mulheres da Via Campesina Brasil ocuparam uma área da empresa Aracruz Celulose em Barra do Ribeiro (RS). A data e o lugar - sede da II Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural da FAO - foram simbolicamente escolhidos para demonstrar a indignação dessas camponesas com a mercantilização da natureza, em curso hoje no mundo.

A terra, as águas, as sementes, o ar e as matas são considerados hoje recursos que devem ser explorados conforme os interesses econômicos de grandes empresas multinacionais. Sob o argumento de reflorestamento, criaram-se verdadeiros desertos verdes de produção de madeira para fábricas de celulose. O eucalipto é a principal espécie dessa estratégia e danifica o solo de forma irreparável: uma vez plantado, não é possível retomar a fertilidade da terra e seus minerais. Além disso, as raízes do eucalipto penetram nos lençóis freáticos, prejudicando o abastecimento de água das regiões. Cada pé de eucalipto é capaz de consumir 30 litros de água por dia. A maior proprietária nessa empreitada é a Aracruz Celulose, que tem 250 mil hectares plantados em terras próprias, 50 mil só no Rio Grande do Sul. Suas fábricas produzem 2,4 milhões de toneladas de celulose branqueada por ano, gerando contaminação no ar e na água, além e prejudicar a saúde humana.

Apesar da ação realizada na última semana ter obtido espaço na mídia, as razões colocadas acima, que levaram as mulheres da Via Campesina Brasil a ocupar a empresa, não tiveram espaço. Apenas a Aracruz Celulose pode colocar suas opiniões, transformado uma ação política em um drama pessoal da pesquisadora responsável pelas mudas de eucalipto. Funcionários foram entrevistados lamentando o ocorrido, mas em nenhum momento foi dito que a Aracruz gera apenas um emprego a cada 185 hectares plantados, enquanto a pequena propriedade rural gera um emprego por hectare.

No Espírito Santo e na Bahia, lugares em que a empresa está presente, pelo menos 88 mil postos de trabalho vão sumir esse ano por conta de um empréstimo de 297 mil reais do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e do Fundo de Participação PIS/Pasep, para plantios de eucalipto pela empresa. No total, a área com financiamento será de 90.806 hectares. O prazo de carência desses créditos do BNDES é de 21 meses. Só a partir daí começam os pagamentos do empréstimo e os prazos das amortizações chegam a 84 meses. Tudo isso a juros de incríveis 2% ao ano! Já as taxas de juros praticadas no Programa Nacional da Agricultura Familiar (Pronaf) variam até 8,75% ao ano.

Nos últimos três anos, a empresa recebeu 2 bilhões de reais dos cofres públicos. O dinheiro, conforme demonstra o balanço de 2005, foi 56% destinado ao exterior, onde se concentram boa parte de seus proprietários: a empresa noruguesa Lorenz detém 28%, (cujo maior acionista é o cunhado do Rei da Noruega). Outros 28% são do Banco Safra, do capital internacional com sede em Mônaco, 28% da Votorantim, e 12,5% do BNDES. A Souza Cruz (grupo British American Tobacco), também tem acionistas, mas em menor percentual.

“Poderíamos ficar orgulhosos porque a Aracruz pertence a um  norueguês que tem êxito no exterior e ganha muito dinheiro. Mas não. Não estamos orgulhosos. A Aracruz está roubando ou ocupando território de indígenas e isso criou uma reação forte no nosso povo. Tem muita floresta na Noruega, como também na Suécia e Finlândia, que formam a Escandinávia, no norte da Europa, onde foi fundada a empresa Stora Enso, que também produz celulose no Brasil. Porque não produzem a celulose lá na Europa? Para poder usar a madeira das árvores nativas da Escandinávia é preciso deixar crescer entre 10 e 30 anos. Em vez disso, o eucalipto já pode ser usado depois de 7 anos. E é muito mais barato produzir no Brasil, a mão-de-obra sendo mais barata”, denuncia Ingeborg Tangeraas, ativista norueguesa da organização NBS (Norwegian Farmers and Smallholders Union).

A coroa sueca também tinha ações, mas vendeu em janeiro, depois do repudio da população à ação realizada pela empresa contra o povo Guarani no Espírito Santo. Cerca de 120 homens da Polícia Federal utilizaram helicópteros, bombas, armas e munições, além de máquinas da própria Aracruz Celulose, para derrubar plantações e casas e expulsar 50 guaranis de uma terra que lhes pertence. A área, invadida ilegalmente pela empresa para plantar eucaliptos, está ainda em discussão no poder público. Isso não foi suficiente para evitar a prisão de oito de indígenas e dezenas de feridos.

Em uma conferência mundial que discutia Reforma Agrária, a ação realizada pelas mulheres da Via Campesina Brasil coloca em questão por que um governo que quer acabar com a fome continua patrocinando e legitimando companhias como essa, que apenas multiplicam o deserto verde, causam desemprego e ainda violentam o povo brasileiro. Não somos contra a pesquisa. Pelo contrário, queremos pesquisar cada vez mais. Mas pesquisar soluções para os problemas do povo, e não apenas ampliar a produtividade para aumentar o lucro das multinacionais. Os que inventaram a bomba atômica também eram grandes pesquisadores. O investimento nestas companhias, nove vezes superior ao empregado na agricultura familiar, só pode nos levar a uma conclusão: a idéia é que dentro de 20 anos a base da alimentar do brasileiro seja a celulose!

Forte abraço,
Secretaria Nacional do MST

Domingo , 19 de Março de 2006

Ecologias

Pode conter Ned Ludd

Pode conter Ned Ludd

Ludd

Coluna Ciência em Dia
Folha de S.Paulo - caderno mais!

Manter um blog tem muitas desvantagens, como ser xingado no próprio canal aberto para o leitor, mas vez por outra também aparecem surpresas boas. Não faz muito, um leitor que se identifica só como "carcamano" reagiu a uma provocação sobre a destruição de instalações de pesquisa por mulheres da Via Campesina, no Dia Internacional da Mulher (8 de março), citando um verso do romântico Lord Byron, em 1816: "And down with all kings but King Ludd!" (tradução livre: "E abaixo todos os reis, a não ser pelo Rei Ludd!").

O leitor letrado deixou claro que não endossava a ação bárbara das amigas do MST contra a pesquisa no Rio Grande do Sul. Mas sua intervenção fez o favor de lembrar que a condenação automática dos "ludditas", como se convencionou chamar genericamente os inimigos da tecnologia, é uma figura histórica. E que ela já nasceu com a missão de estigmatizar revoltas sociais como retrógradas.

Ned Lud (ou Ludd) é ele próprio personagem nebuloso, talvez um simples débil mental que destruiu dois teares em 1779, na Inglaterra, para vingar-se da mãe de duas crianças que o atormentavam. Ou ainda, quem sabe, um líder social. Seu nome foi reconsagrado no imaginário popular com as revoltas contra condições de trabalho nas fábricas britânicas, três décadas depois, que principiavam pela destruição de máquinas. Em poucas palavras, tornaram-se "inimigos do progresso".

O termo "luddita" sempre vem à tona quando alguém se atreve a questionar supostos progressos como alimentos transgênicos, energia nuclear, células-tronco embrionárias, engenharia genética e por aí vai. É uma operação retórica e ideológica para calar todo e qualquer debate público e controle social sobre a tecnociência. A mensagem de fundo é: os cientistas é que sabem, confie neles.

O MST adora vestir a carapuça de Ludd, pois isso traz farta exposição na TV. Já teve até "guest star", José Bové. Desta vez, usou a mão das gatas da Via Campesina para atacar um tigre do papel, o eucalipto (que não é das árvores favoritas desta coluna, lugar reservado às araucárias, às piúvas e aos manacás-da-serra). Depois, apoiou, com a sutileza esperável de um João Stedile, a destruição dos laboratórios em que se estudavam novas variedades da planta (não-transgênicas) para aumentar o rendimento na produção de celulose.

Na mesma semana, o MST comemorou uma vitória: durante reunião da ONU em Curitiba, o governo brasileiro anunciou que adotaria a rotulação de cargas internacionais de commodities com os dizeres "contém OVM" (organismo vivo modificado), posição dada pelos fundamentalistas da biotecnologia como "luddita". No campo "progressista", defendia-se o rótulo "pode conter OVM", que desobrigaria exportadores de pagar pela segregação e pelo teste de suas cargas.

Como o MST, ONGs e a ministra Marina Silva comemoraram essa vitória da transparência, que em última análise beneficia consumidores de países importadores. Seria interessante saber se também festejaram com a Via Campesina, privadamente, a destruição do laboratório. Em público, ao menos, não chegaram a condená-la.

Marcelo Leite é doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, autor dos livros paradidáticos "Amazônia, Terra com Futuro" e "Meio Ambiente e Sociedade" (Editora Ática) e responsável pelo blog Ciência em Dia (cienciaemdia.zip.net). E-mail: cienciaemdia@uol.com.br

 

Sexta-feira , 17 de Março de 2006

Biotecnologias

O Gene Egoísta faz 30 anos

O Gene Egoísta faz 30 anos

Richard Dawkins

Qualquer pessoa que tenha lido o best-seller sociobiológico e determinista de Richard Dawkins sabe que se trata de um livro notável, para o bem e para o mal. Do meu ponto de vista, é um exemplo clássico de uma metáfora levada a sério e longe demais, mas vou interromper meus próprios juízos de valor por aqui. Encontro-me, afinal, numa cruzada altruísta para obter posicionamentos críticos de cientistas naturais acerca de sua própria seara, dado que tantos que visitam este blogue se mostram refratários a pitacos externos.

Após 30 anos com O Gene Egoísta na praça, Dawkins declarou em artigo no Sunday Times que só alteraria o título do livro - mesmo assim, talvez (por falar em título, preste atenção no do artigo: "Tudo está nos genes"). Leia com atenção.

Se quiser uma recomendação, lá vai uma: não perca tempo com a armadilha retórica segundo a qual qualquer crítico do livro é uma pessoa por demais apegada e conformada com a necessidade de encontrar ou pressupor um sentido mais elevado para a vida etc. Vá direto ao ponto e depois responda: há exagero ou não na noção de que os genes são a única entidade, ou unidade, sobre a qual age a seleção natural (e não a espécie, nem o organismo)?

Como contribuição para o debate, seleciono um trecho para traduzir, logo a conclusão:


"Um outro bom título alternativo teria sido O Gene Cooperativo. Ele soa paradoxalmente oposto, mas uma parte central do livro argumenta em favor de uma forma de cooperação entre genes com interesses próprios. Isto não significa, enfaticamente, que grupos de genes prosperam à custa de seus membros, ou à custa de outros grupos. Em lugar disso, cada gene é visto como algo que segue sua própria agenda auto-interessada contra o pano de fundo de outros genes no pool genético - o conjunto de candidatos à mesclagem sexual no âmbito de uma espécie. Esses outros genes são parte do ambiente em que cada gene sobrevive, da mesma maneira que o clima, predadores e presas, a vegetação de sustento e bactérias do solo são partes do ambiente. Do ponto de vista de cada gene, os genes "de pano de fundo" são aqueles com os quais partilha corpos em sua jornada através das gerações. No curto prazo, isso quer dizer os outros membros do genoma. No longo termo, os outros genes do pool genético da espécie. A seleção natural, portanto, cuida para que gangues de genes mutuamente compatíveis - o que é quase o mesmo que dizer cooperantes - são favorecidos na presença umas das outras. Em nenhum momento essa evolução do "gene cooperativo" viola o princípio fundamental do gene egoísta."


Embora Dawkins seja detentor de uma cadeira em Public Understanding of Science na Universidade Oxford, esta passagem não me parece particularmente clara. Mas, pensando bem, é uma mudança e tanto de título, essa que ele sugere. Talvez.

 

 

Quarta-feira , 15 de Março de 2006

Biotecnologias

Wilmut pode não ser

Wilmut pode não ser "pai" de Dolly

 

Não fui só eu que dormi no ponto, parece. No dia 9, a farmacêutica e bioquímica brasileira Liliana Rodrigues de Souza, que faz pós-doutorado na Universidade do Texas em San Antonio, postou um comentário lacônico aqui no blog que vi só com o canto do olho, por assim dizer:


[Liliana][desouzal@uthscsa.edu][Sobre a clonagem da Dolly]
Voce sabia que e Dr Ian Wilmut nao tinha participado diretamente da clonagem da Dolly?


Não sabia o que era, não tinha ouvido falar, não fazia muito sentido... aí fiz o que nenhum jornalista deveria fazer: deixei de ir atrás. Agora sei que Liliana tinha lido uma nota, " ´Pai' de Dolly admite não ter participado de clonagem", na Folha Online (O jornal Folha parece não ter dado nada sobre o caso, nem vi em outros diários, mas posso ter deixado escapar).

Agora topo com o caso na revista The Scientist, também. Parece que o problema se resume a Ian Wilmut, então do Roslin Institute, ter assumido a paternidade de Dolly, assinando o artigo de 27 de fevereiro de 1997 na Nature (v. 385, p. 810-813) como primeiro autor, sem ter se envolvido de fato na clonagem - seu papel teria se resumido a uma supervisão. Supostamente, foi um "acordo" com Keith Campbell, último autor do artigo. Agora Wilmut teria admitido, num processo trabalhista que nada tem a ver com Dolly, que Campbell faria jus a 66% do crédito.

É um caso curioso, que sugere como são pouco transparentes os critérios e práticas científicas que parecem as mais estabelecidas e convencionais, como a contribuição do primeiro autor (em geral quem de fato fez o trabalho) e último autor (quem supervisiona, o chefe). Bem fazem as revistas biomédicas que já adotam descrições mais detalhadas de quem fez o quê. É muito mais honesto com os leitores e dá muito menos margem a manipulações.

Segunda-feira , 13 de Março de 2006

Ciência e Sociedade

Sem comentários

Sem comentários

Por absoluta falta de tempo (tenho de sair daqui a minutos para entrevistar a ministra Marina Silva no programa Roda Viva da TV Cultura), reproduzo abaixo notícia que li via blog 3quarksdaily. Três perguntas para meus amigos e inimigos não-antideterministas:

1. Vocês acham que as muitas ilações sobre reversão a um estado primitivo seriam feitas se a família não fosse curdo-turca?

2. Vocês acham que pode mesmo existir um gene do/para bipedalismo?

3. Vocês acham que esta reportagem abaixo transmite uma mensagem determinista ou não-determinista?


Report: Turkish Siblings Discovered Walking on All Fours

Tuesday, March 07, 2006

By Sam Lister

Five brothers and sisters who can only walk naturally on all fours are being hailed as a unique insight into human evolution after being found in a remote corner of rural Turkey.

Scientists believe that the family may provide invaluable information on how man evolved from a four-legged hominid to develop the ability to walk on two feet more than three million years ago.

A genetic abnormality, which may prevent the siblings, aged 18 to 34, from walking upright, has been identified.

The discovery of the Kurdish family in southern Turkey last July has triggered a fierce debate.

Two daughters and a son have only ever walked on two palms and two feet, with their extended legs, while another daughter and son occasionally manage a form of two-footed walking. The five can stand up, but only for a short time, with both knees and head flexed.

Some researchers claim that genetic faults have caused the siblings to regress in a form of "backward evolution." Other scientists argue more strongly that their genes have triggered brain damage that has allowed them to develop the unique form of movement.

But all agree that the family's walk, described as a "bear crawl," may offer invaluable information on how our ape-like ancestors moved.

Rather than walking on their knuckles like gorillas and chimpanzees, the family are "wrist walkers," using their palms like heels with their fingers angled up from the ground.

Scientists believe this may be the way hominids moved, allowing them to protect their fingers for the more delicate and dextrous maneuvers so critical in the evolution of man.

Nicholas Humphrey, evolutionary psychologist at the London School of Economics, who has visited the family, said that the siblings appeared to have reverted to an instinctive form of behavior encoded deep in the brain, but abandoned in the course of evolution.

"I do not think they were destined to be quadrupeds by their genes, but their unique genetic makeup allowed them to be," Humphrey said. "It is physically possible, which no one would have guessed from the [modern] human skeleton."

Humphrey, who has been contributing to an upcoming BBC program, "The Family that Walks on All Fours," to be broadcast in Britain on March 17, said that weeks of study, and factors such as their hands' shape and callouses, showed that this was a long-term pattern of behavior and not a hoax.

"However they arrived at this point, we have adult human beings walking like ancestors several million years ago," he said.

The siblings, who live with their parents and 13 other brothers and sisters, are mentally retarded, as a result of a form of cerebellar ataxia — an underdevelopment of the brain similar to that in cystic fibrosis.

Their mother and father, who are themselves closely related, are believed to have passed down a unique combination of genes resulting in the behavior.

While Humphrey said that cultural influences in their upbringing may have played a crucial role, with parental tolerance allowing the children to keep to quadrupedal walking, others believe that the cause is more purely genetic.

Uner Tan, a professor of physiology at Cukurova University in Adana, Turkey, who first brought the family to the attention of scientists, argues that the gene mutations have made them regress to a "missing link" primate state, also explaining their severe problems with language.

A team of German geneticists believes that the family holds the key to a breakthrough gene for bipedality.

Researchers said that while the women affected, Safiye, 34, Senem, 22, and Amosh, 18, tended to spend their time sitting outside the family's basic rural home, one brother, Huseyin, 28, went into the local village on all fours, where he could engage in basic interactions.

Jemima Harrison, of Passionate Productions, which is producing the documentary, said: "They walk like animals and that's very disturbing at first. But we were also very moved by this family's tremendous warmth and humanity."

Miscelânea

Meta de vôo de Pontes é aparecer, diz AEB

Meta de vôo de Pontes é aparecer, diz AEB

Leia no Jornal da Ciência a entrevista que Herton Escobar, do jornal O Estado de S.Paulo, fez com Sergio Gaudenzi, presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB). Reproduzo trechos iniciais:


- O que o Brasil ganha, de fato, ao colocar um astronauta no espaço?

Em primeiro lugar, a gente ganha enorme visibilidade para o programa espacial. E por que interessa essa visibilidade? É importante que o povo entenda o que é o programa espacial, quais são os benefícios desse programa, quem participa desse tipo de coisa. Estamos num clube de países de ponta do desenvolvimento, como EUA, Rússia, França, Alemanha, China, Índia, Japão. Se a gente consegue participar disso e colocar um astronauta no espaço, ter essa visibilidade ajuda o povo a entender o programa e a necessidade dele. Se o povo entender o programa, é claro que isso reflete no Congresso Nacional, e isso desperta nossos parlamentares, o que facilita a manutenção dele. A idéia é essa, dar visibilidade ao programa.

- Ainda assim, US$ 10 milhões não é um preço muito alto? Não seria possível fazer a mesma divulgação por meio de campanhas?

Não, isso seria bem mais caro. O que a gente tem obtido em termos de mídia nos últimos três meses e, certamente, o que vamos conseguir durante e a